9 Polaroids das fachadas dos cinemas de rua de Havana, Cuba.

9 histórias cubanas, vividas e narradas por diretores de cinema brasileiros:

André Klotzel, Beto Brant, Cao Hamburger, Felipe Briso, Hector Babenco, Laís Bodanzky,

Luiz Bolognese, Ricardo Van Steen e Tadeu Jungle.

Cuba é uma ilha flutuando no tempo. Desprovida de contemporaneidade. Desgarrada de qualquer cronologia. Nada no mundo acompanha as passadas da ilha, nem o extinto tiranosauro soviético, nem as guinadas da trôpega América Latina. Cuba está acontecendo numa época só sua. Os carros americanos dos anos 50 reluzem como novos ao lado dos Ladas soviéticos que parecem bem mais antigos, mesmo tendo sido fabricados 20 anos depois. A fúria voluptuosa do consumo não expõe suas garras em onipresentes monitores de tv, nem impregna a retina com corpos de mulheres segurando celulares sobre novíssimos capôs de automóveis. Não há nada para comprar. Portanto o olhar é menos prisioneiro que em qualquer outro lugar do século 21. Mas o que há para ver, então? É isso que Marcelo Pallotta responde neste ensaio de alma fotográfica. Walter Benjamin falava da aura que só existe na obra de arte antes de sua reprodução industrial. Para apreender a aura irreprodutível dessa ilha perdida no tempo, Pallotta recorre ao ícone absoluto, que é a fotografia, através de seu radicalismo máximo, que é a polaróide. O que a câmera de Pallotta faz não é uma construção estética que privilegia a alteridade do olhar, como faz a publicidade ou mesmo a fotografia artística que impinge enquadramentos e cores para transformar a realidade numa leitura sempre edificante. A escolha de Pallotta da representação através do ícone absoluto procura e consegue documentar a aura. É extremamente curioso o fato de Pallotta escolher velhos cinemas de rua, com seus letreiros caídos e fachadas decadentes, uma vez que ele é o artista responsável pelos mais importantes cartazes do cinema brasileiro contemporâneo. Nesse seu fazer artístico, o objetivo é exatamente o oposto do que se vê - e não se vê - neste ensaio fotográfico. Nos seus cartazes de cinema, Pallotta desdobra a expressão de milhares de fotogramas de um filme através de uma imagem única, com a missão de que o olhar deitado sobre esta solitária imagem transforme-se em desejo, fagulha de consumo. Os cartazes de Pallotta são o ponto máximo da expressã artística enquanto reprodução industrial. Neste ensaio, entretanto, Pallotta realiza sua antítese perfeita. Diante dos velhos e sagrados templos cinematográficos de Cuba, o artista se despe da elaboração da imagem, como o ator num ápice. Este ensaio é oposto da industrialidade da obra de arte e sua vocação de consumo – legítimos, diga-se de passagem. É como se na ilha do materialismo dialético, Pallotta fizesse um exercício de dialética de seu próprio trabalho. Na maioria dos ensaios fotográficos, a ambição edificante e a busca da beleza saltam em primeiro plano, afastando-se da iconicidade capaz de traduzir a aura. Este ensaio de Pallota é um ensaio da desvaidade, tanto na atitude que deseja documentar a aura, quanto na escolha do objeto: o palácio cinematográfico desglamurizado. É um elogio à essência da representação cinematográfica, tanto na afirmação do primado da imagem, quanto no reconhecimento da sacralidade do velho templo que resiste na calçada. Perguntei a ele por que a polaróide. Em meio às divagações do artista, voou pelos ares uma frase que apreendi como a única prova de que tudo que foi dito aqui não se trata de um desvario. Pallotta decidiu fotografar com a polaróide, entre outros motivos, segundo ele, porque os fotografados pedem sempre que lhes enviem uma foto e com a polaróide esse pedido podia ser atendido no mesmo instante. Nesse caso, a obra se vai. Em defesa da aura.

Luiz Bolognese